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Asfalto Tarumã

O cheiro é de mato verde e molhado

A confusão entre a variedade de pássaros

O pé de água-pomba - fruta proibida

Jabuticaba no caminho

Gado no caminho

Eu no caminho

Sem poder ver a construção

O sol batendo na mangueira pela manhã

Crianças colhendo tarumã

E eu aproveitando a sombra da casa

Pra me recordar da sombra dos prédios

Dos carros engolindo o asfalto

Enquanto engulo poeira

O som do violão me desperta

E me traz de volta a esse mundo de calmaria

A rede num galpão coberto de palhas me espera

E entre embalos

Observo nuvens brancas formando rostos

E até nesse momento

O meu coração é de concreto     

Notes

Eu sem mim

Penso em você

Em nós

Em tudo

O que desejo lhe dizer

E espero que um dia

Consiga

Porque está tudo aqui

No peito

Na cabeça

Na garganta

Na ponta de meus dedos

E soa alto

No silêncio desta noite

Fria e feita

Para o meu sossego

Noturno

O das letras

Da escrita na madrugada

Que salva

Restaura

Livra-me de mim

Somos

O que sempre fomos

Temo pelo que parece

Nunca seremos

Ainda te amo tanto mesmo assim

Gostaria de poder lhe dizer minhas besteiras

Só para ouvir você sorrir

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Vida

Planos

Sonhos

Amor

Dor

Delícias

Lágrimas

Risos

Desatinos

Disso tudo

Que a vida é feita

Que nos enfeia

E nos enfeita

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Recomeço

Romper o silêncio

Faz a amargura

Menos amarga

E se não chega

A adoçar a vida

Torna o viver

Mais claro

Todo reinício

Requer uma faxina

Se a fé não falha

Quem com fé

Recomeça

Declara à tristeza

Guerra

Embora a mágoa

Não tenha fim

Quem luta

Um dia

Amanhecerá

Alecrim 

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Pantanal de Flores

Todo coração

Em um momento se aperta

Ninguém vive em mar de rosas

muito menos eu em pantanal de flores

O rio parece calmo

Mas há nele fortes correntezas

Seus aguapés lilases me recriam

Não fosse isso

Em dias de negro horizonte

Minha canoa se afundaria

Há matizes nessa vida que me enfentiçam

Persigo a felicidade porque desejo me enfeitar de suas cores

A lua é o sol a esconder os próprios raios

Estico o dia para encompridar a noite

Guardo na alma seu primeiro olhar como se fosse hoje

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Vertigem

Amanheço

na verde rede

de meu verso varanda

com a palavra inversa

e a alma pelo avesso

Vertiginoso viéis

sacode a lua

da finda madrugada

e eu não enlouqueço

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Cata-vento

Atônito

tento um ato

que desate o nó

do meu tormento

mas o medo, tempestade

Cata-vento

O tempo passa

não há tato

perdi o momento

o medo, tempestade

Cata-vento

O nó não se desata

o desejo cala

na prisão solitária

do pensamento

medo, tempestade

Cata-vento

E o que dói é feito chaga

do peito não se aparta

continua remoendo

tempestade

vem no vento

cata o vento

Cata-vento  

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Como se escreve?

   “Só sei como se escreve quando estou escrevendo”, disse Clarice Lispector. E eu gosto de tudo o que já consegui ler sobre o que ela escreveu. Desde muito menina escrevo e engaveto tudo. Não sei como se escreve nem mesmo quando estou escrevendo. Só sei que gosto de escrever. E não sou sequer esforçada.

   Já enfrentei muitas dores, mas como tenho mania de felicidade, sou só alegria quando escrevo.

   Leio também os textos daqueles que assumem responsabilidade social. Eu, no entanto, não possuo nenhuma. E como não sou escritora não causo danos. Abro minha gaveta de guardados muito de vez em quando e entre risos e lágrimas releio fragmentos, rasgo alguns. Outros tantos Registros jamais se libertarão de mim, que os escrevo para me sentir L I V R E, fingir-me P O E T A e ser somente FE L I Z !

                                                                                                          

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Ressalva

    Dia 3 de junho, sexta-feira, alguns de meus alunos me intimaram a criar um blog. Eu os incentivo a escrever e mostar suas redações, mas mantive até então meus escritos engavetados, muitos ainda em folhas amareladas pelo tempo, comportamento antigo e porque não dizer medroso. Já escrevi para um jornal de Corumbá. De vez em quando arrisco publicar uma ou outra crônica. Os versos? A primeira vez que os vi fora de minha gaveta foi na revista Carandá, da UFMS e fiquei muito feliz. A essa publicação e incentivo devo aos professores Luciene e Rauer, ambos da UFMS, campus pantanal, grandes motivadores do Curso de Letras, que com suas visões modernas e inteligentes encaminharam com sabedoria muitos universitários.

   O blog foi criado sexta, hoje é domingo. Segunda meus alunos vão me perguntar pelos textos. Realmente não há mais desculpas. Minha família, três filhos Raoni, Maíra Yelena, Galileu e meu marido e companheiro Fred sempre acreditaram que os devia publicar. Algumas pessoas amigas conhecem alguns, mas a partir de hoje eles serão do conhecimento de quem quiser. E que me desculpe o poeta e sua receita de que se deve guardar uma poesia por nove anos e só publicá-la se depois desse tempo a pessoa que a compôs ainda gostar do que lê. Alguns de meus textos têm mais de 30 anos guardados. Novos ou antigos, ora gosto, ora não do que releio, mas vá lá, não sou poeta, apenas escrevo.

   Obrigada queridos alunos Milena, Guilherme, Arthur, Camilo, Julia, Maria Helena, Marina, Mariana, Gabriel, devendo à Milena a criação e a Guilherme o reforço inventivo do nome. O blog RegistRose é nosso!