O cheiro é de mato verde e molhado
A confusão entre a variedade de pássaros
O pé de água-pomba - fruta proibida
Jabuticaba no caminho
Gado no caminho
Eu no caminho
Sem poder ver a construção
O sol batendo na mangueira pela manhã
Crianças colhendo tarumã
E eu aproveitando a sombra da casa
Pra me recordar da sombra dos prédios
Dos carros engolindo o asfalto
Enquanto engulo poeira
O som do violão me desperta
E me traz de volta a esse mundo de calmaria
A rede num galpão coberto de palhas me espera
E entre embalos
Observo nuvens brancas formando rostos
E até nesse momento
O meu coração é de concreto
Penso em você
Em nós
Em tudo
O que desejo lhe dizer
E espero que um dia
Consiga
Porque está tudo aqui
No peito
Na cabeça
Na garganta
Na ponta de meus dedos
E soa alto
No silêncio desta noite
Fria e feita
Para o meu sossego
Noturno
O das letras
Da escrita na madrugada
Que salva
Restaura
Livra-me de mim
Somos
O que sempre fomos
Temo pelo que parece
Nunca seremos
Ainda te amo tanto mesmo assim
Gostaria de poder lhe dizer minhas besteiras
Só para ouvir você sorrir
Todo coração
Em um momento se aperta
Ninguém vive em mar de rosas
muito menos eu em pantanal de flores
O rio parece calmo
Mas há nele fortes correntezas
Seus aguapés lilases me recriam
Não fosse isso
Em dias de negro horizonte
Minha canoa se afundaria
Há matizes nessa vida que me enfentiçam
Persigo a felicidade porque desejo me enfeitar de suas cores
A lua é o sol a esconder os próprios raios
Estico o dia para encompridar a noite
Guardo na alma seu primeiro olhar como se fosse hoje
Atônito
tento um ato
que desate o nó
do meu tormento
mas o medo, tempestade
Cata-vento
O tempo passa
não há tato
perdi o momento
o medo, tempestade
Cata-vento
O nó não se desata
o desejo cala
na prisão solitária
do pensamento
medo, tempestade
Cata-vento
E o que dói é feito chaga
do peito não se aparta
continua remoendo
tempestade
vem no vento
cata o vento
Cata-vento
“Só sei como se escreve quando estou escrevendo”, disse Clarice Lispector. E eu gosto de tudo o que já consegui ler sobre o que ela escreveu. Desde muito menina escrevo e engaveto tudo. Não sei como se escreve nem mesmo quando estou escrevendo. Só sei que gosto de escrever. E não sou sequer esforçada.
Já enfrentei muitas dores, mas como tenho mania de felicidade, sou só alegria quando escrevo.
Leio também os textos daqueles que assumem responsabilidade social. Eu, no entanto, não possuo nenhuma. E como não sou escritora não causo danos. Abro minha gaveta de guardados muito de vez em quando e entre risos e lágrimas releio fragmentos, rasgo alguns. Outros tantos Registros jamais se libertarão de mim, que os escrevo para me sentir L I V R E, fingir-me P O E T A e ser somente FE L I Z !
Dia 3 de junho, sexta-feira, alguns de meus alunos me intimaram a criar um blog. Eu os incentivo a escrever e mostar suas redações, mas mantive até então meus escritos engavetados, muitos ainda em folhas amareladas pelo tempo, comportamento antigo e porque não dizer medroso. Já escrevi para um jornal de Corumbá. De vez em quando arrisco publicar uma ou outra crônica. Os versos? A primeira vez que os vi fora de minha gaveta foi na revista Carandá, da UFMS e fiquei muito feliz. A essa publicação e incentivo devo aos professores Luciene e Rauer, ambos da UFMS, campus pantanal, grandes motivadores do Curso de Letras, que com suas visões modernas e inteligentes encaminharam com sabedoria muitos universitários.
O blog foi criado sexta, hoje é domingo. Segunda meus alunos vão me perguntar pelos textos. Realmente não há mais desculpas. Minha família, três filhos Raoni, Maíra Yelena, Galileu e meu marido e companheiro Fred sempre acreditaram que os devia publicar. Algumas pessoas amigas conhecem alguns, mas a partir de hoje eles serão do conhecimento de quem quiser. E que me desculpe o poeta e sua receita de que se deve guardar uma poesia por nove anos e só publicá-la se depois desse tempo a pessoa que a compôs ainda gostar do que lê. Alguns de meus textos têm mais de 30 anos guardados. Novos ou antigos, ora gosto, ora não do que releio, mas vá lá, não sou poeta, apenas escrevo.
Obrigada queridos alunos Milena, Guilherme, Arthur, Camilo, Julia, Maria Helena, Marina, Mariana, Gabriel, devendo à Milena a criação e a Guilherme o reforço inventivo do nome. O blog RegistRose é nosso!